Encontros do Prazer do Texto (1)

A leitura, a partilha e discussão de “Os despojados”de Ursula Kroeber Le Guin.

Muito tarde, na noite seguinte da nave, Shevek estava no jardim da Davenant. As luzes estavam apagadas, e o jardim estava iluminado apenas pelas estrelas. O ar estava bastante frio. Uma planta de florescimento noturno, proveniente de um qualquer mundo inimaginável, tinha aberto entre as folhas negras e exalava o seu perfume como uma doçura paciente e fútil, para atrair uma qualquer borboleta a trilhões de quilómetros de distância, no jardim de um mundo que orbitava outra estrela. As luzes do sol variam, mas há só uma escuridão. (Os despojados, [1974] 2017, 320)

Ursula Kroeber Le Guin deixou-nos universos atravessados pelo perfume de uma flor nocturna cujo aroma percorre trilhões de quilómetros. Universos conectados por borboletas viajantes espalhando pólen e palavras.

(…)

Do pormenor ao gigantesco, são universos de leitura ainda por descobrir. A leitura é isso, alargar as experiências, representar-se mundos e pessoas diferentes de nós e vir a conhecê-las, assim como ficar a conhecer-se. A leitura permite-nos viver “numa grande casa, com muitos quartos e janelas e portas e nenhuma delas fechadas”. Então, sim, ler e reler Ursula Kroeber Le Guin, não só porque perdi a página onde Shevek nos diz que uma mulher não precisa de aprender a ser anarquista, mas também porque há muito mais portas e janelas abertas para explorar.

[Excerto do texto intitulado “O infinito num pormenor. Ler e reler Ursula Kroeber Le Guin” de Ana da Palma in A IDEIA – revista de cultura libertária. II série – ano XLIV – vol. XXI – n.os 84/85/86 – Outono de 2018]

Captura de Tela 2018-09-12 às 12.33.44“Não temos nada, a não ser a nossa liberdade. Não temos nada para vos dar a não ser a vossa própria liberdade. Não temos lei além do princípio único da ajuda mútua entre os indivíduos. Não temos governo, além do princípio único de livre associação. Não temos estados, nações, presidentes, primeiro-ministros, chefes, generais, patrões, banqueiros, senhorios, salários, caridade, polícia, soldados, guerras. E também não temos muito mais. Somos partilhadores, não proprietários. Não somos prósperos. Nenhum de nós é rico. Nenhum de nós é poderoso. Se é Anarres que vocês querem, se é o futuro que procuram, digo-vos então que têm de chegar lá de mãos vazias. Devem chegar lá sozinhos e nus, como a criança chega ao mundo, ao seu futuro,  sem qualquer passado, sem qualquer propriedade, completamente dependente de outras pessoas para sobreviver. Não podem receber aquilo que não deram, e têm de se dar a vocês mesmos. Não podem comprar a Revolução. Não podem fazer a Revolução. Apenas podem ser a Revolução. Esta, ou está no vosso espírito, ou não está em lado nenhum.” (Os despojados (2017), 253-254)

Primeiro Encontro 26/09/2018 às 21:30 na Gazua

Segundo Encontro 10/10/2018 às 21:30 (local a definir)

Encontros do Prazer do Texto no Moodle do Sapato43

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